A Inês conheceu o Diniz numa noite quente de Verão quando orgulhoso o povo utilizava o símbolo da selecção na lapela e se vestiam e revestiam com vermelho e verde da bandeira, a única altura em que isso acontece, no restante tempo é parolo, ainda que utilizar bandeiras de outros países e nomes na roupa seja algo muito trendy e super fashion, mas não divaguemos, esse foi o cenário em que eles se conheceram, e e se aproximaram e se entre olharam com sorrisos trocados. Uns dias depois quando Inês estava em casa sentada à janela virada para a foz do Douro, hábito que ela tinha e de que tanto gostava, com o luar ao fundo ele beijou-a... Estavam apaixonados. E tudo eram flores, era um doce de homem, um doce de mulher feitos um para o outro... As flores vêm com algumas restrições, mas o principal é que tudo eram flores. Começou com coisas simples como, "Porque colocas tanto Nestum no leite? Não coloques tanto Nestum" ao que ela respondia "porque eu gosto assim", mas quando dava conta já comia o seu Nestum com leite como ele queria que ela comesse. Sem que se apercebesse, os seus amigos eram os dele. Bem amigos é uma forma de dizer. Sem que se apercebesse um dia permitiu que ele atendesse o seu telemóvel com uma chamada de um amigo um pouco tardia, nove da noite, a desancá-lo a humilhá-lo porque aquilo não eram horas de ligar para a sua namorada, este sua namorada estava tão carregado de sentimento de posse... sem que ela se apercebesse. Este amigo nunca mais lhe falou! Sem que se apercebesse estava proibida de falar com homens excepto se fosse estritamente necessário, porque toda e qualquer conversa de circunstância era para ele um flirt, uma potencial traição. Mas tudo eram rosas e valia a pena lutar por aquele amor(??).
Sem que ela se apercebesse ele seguia-a até à faculdade quando ela dizia que não valia a pena estar a levá-la.
Sem que ela se apercebesse tudo eram chantagens, términos de namoro vários à mínima falha(?). Ela chorava compulsivamente a implorar-lhe que ele não partisse a prometer que ia ser melhor, que iria ser exactamente como ele queria que ela fosse, mas que não a deixasse por favor e ele ficava... O seu objectivo não era nunca deixá-la, apenas chantagem emocional. Mas tudo eram rosas.
Um dia, nesse dia, nesse inicio de noite ela recebeu uma chamada que durou meio segundo, aquilo que se chamavam toques muito em moda nessa altura, de um número privado e mostrou-lhe, furioso queria ficar-lhe com o telemóvel, a Inês agarrou o telemóvel com tanta força contra o peito como se de agarrar a sua dignidade se tratasse, ele empurrou-a, ele agarrou-a com toda a força pelos braços, pelos pulsos, ela chorava e não desistia, ele furioso gritava "vou ficar com isso!" e ela respondia "não, não vais!". Nessa noite ela saiu. No dia seguinte contemplou as nódoas negras nos pulsos, nos braços nos ombros... Quanta força foi precisa para fazer tamanho estrago? Era frágil e ficava com nódoas negras facilmente mas nunca se tinha observado assim...
Dois dias depois ele ligou, precisava de estar com ela, pediu desculpa, ela disse que precisava de mais umas horas e pediu para ir ter com ela à noite, facto que o deixou furioso sem que ela se apercebesse. Ela reflectiu e subitamente estava cheia de vontade de rever o seu amor, o que iríamos fazer naquela noite maravilhosa de reconciliação? Cinema Jantar? Mas o cenário que ela encontrou foi outro, o seu olhar de olhos negros e profundos feito, que era tão meigo na maioria do tempo estava enevoado de raiva "Porque é que só quisestes estar comigo agora a noite? Estavas com alguém não estavas?" Palavras que deram o mote à discussão, feia por sinal... Ao primeiro pronunciar dele "Olha que eu assim deixo-te Inês" ela disse... "Para mim basta! deixa-me em casa..." Ele furioso disse "Para ti basta? Para mim é que chega! Vou deixar-te sim longe de mim que já não te posso ver!"...
Esse basta não foi suficiente para evitar as primeiras e tentadoras tentativas dele de uma reconciliação, nem as ameaças e insultos anónimos que se seguiram face as negas... Mas foi a primeira libertação dela!
Num relacionamento, deve haver respeito mútuo e devem sim dar-se satisfações, mas nenhuma mulher é propriedade de algum homem, nem nenhum homem é propriedade de nenhuma mulher.
Um dia pulsos negros e nódoas negras nos braços... E a seguir? O que viria?
(História fictícia, qualquer semelhança com factos,
pessoas ou acontecimentos é mera coincidência)
Que situação estranha é a violência no namoro e em qualquer altura, que estranha forma de amar...
Uma vez ouvi, de uma mulher muito sábia e com uma vida longa: "rapaz que não te trata bem no namoro, nunca te há-de tratar bem. Se não te trata bem para te conquistar vai tratar-te bem depois de te ter?"
Hoje não é dia mundial, nem nacional nem municipal contra a violência doméstica, hoje é o dia em que deve ser combatida, tal como nos restantes... Amanhã pode ser demasiado tarde.
Porque há muita Inês, Dinis, Joana, Pedro, Ana, Afonso, Lurdes... Que se calam! E às vezes... É para sempre!
Stop violence against everyone!
Que se acabe a violência contra todos!
Também não farias anos hoje, nem faz anos que passámos semanas maravilhosas de férias de Verão, também não faz anos que te foste, hoje é um dia como outro qualquer... Em que guardo e recordo o teu sorriso, a última recordação que tenho de ti antes que a tua vida fosse ceifada por quem dizia que te amava, e que queria casar contigo.